Estigma, essencialismo negativo e colonização ET (7)

Autor: Wilson Geraldo de Oliveira

Voltando às narrativas, digamos clássicas, de contato com extraterrestres (ET). Se elas provêm de um colonizador em potencial, obviamente, elas não podem ser desejadas e nem consideradas ações objetivas aceitáveis por nós nativos da terra. Por uma questão de coerência com a nocividade do processo colonial vivido por nós internamente.

Um processo desumano e predatório das riquezas materiais e imateriais dos povos nativos. Temos no mínimo que supor que qualquer que seja esse processo de colonização ET, comparativamente àquilo que compreendemos como tal, eles guardam equivalências de sentido. Além disso, as narrativas apresentam contradições, ambivalências e sentidos dúbios que precisam ser mais bem compreendidas.

Além disso, nem sempre elas nos permitem comprovar a veracidade das informações recebidas. Pelo contrário. É comum percebermos que não obedecem a lógica de informar. Elas nos confundem mais que esclarecem. Talvez venhamos compreender que as narrativas tenham outra função nessa relação. Elas podem p.ex., sendo otimista, representar um exercício de aproximação, um treinamento de comunicação primária entre civilizações radicalmente diferentes.

O essencialismo negativo, nas relações raciais, se constitui em negar o outro em sua essência. Como se fosse possível retirar dele sua natureza humana, tornando-o no mínimo, menos humano. Fazê-lo acreditar numa inferioridade que lhes seja própria, característica de sua natureza. Esse convencimento é um recurso ideológico, um meio, para tornar possível a dominação entre nós humanos terrestre. O dominado é levado a acreditar-se inferior. As marcas corporais constituem-se, muitas vezes, em sinais estigmatizantes que o faz lembrar seu lugar social. O portador do estigma, sinal ou marca é visto como um desqualificado ou menos valorizado. E resignado, aceita essa condição ou se submete a ela. Segundo a definição de Erving Goffman: “estigma” é “a situação do indivíduo que está inabilitado para aceitação social plena” (GOFFMAN, 2004, p.4.)

Essa desqualificação, esse essencialismo negativo, se deu em todas as relações Inter étnicas e “raciais” conhecidas em nosso planeta, onde a supremacia branca se impôs. Em nome de uma ideia de raça, o negro, o índio, o caboclo, o cigano, o judeu, p. ex., foram inferiorizados e estigmatizados de acordo com as conveniências do expansionismo liderado predominantemente, pelo branco europeu.

Poderíamos admitir que esse processo de desqualificação ou estigmatização do outro na relação entre terrestre e extraterrestre seria impossível nos dias de hoje, afinal, dirão: não há aí uma interação com relações objetivas, explícitas, dentro da materialidade do mundo e muito menos ao ponto de haver uma motivação econômica para a exploração de um sobre o outro, como foram os casos das relações Interétnicas ou inter-raciais entre nós. As relações entre povos, etnias ou nações terrestres são cotidianas, norteadas por interesses objetivos, já as relações com estes seres, se acontecem, são muito esporádicas, sem sociabilidades coletivas duradouras. Normalmente as narrativas revelam predominantemente relações de um para um ou entre um número pequeno de indivíduos de ambos os lados.

Talvez seja mesmo assim. Não havendo circunstâncias duradouras certos fenômenos sociais não podem acontecer. No entanto estas relações, ainda que no plano das ideias, do discurso narrativo, revelam muito de nós. Lembrando ainda das citações dos trabalhos Freudianos, onde os tempos, presente, passado e futuro com suas inter-relações e digamos sincronicidades, podem interferir em nossas circunstâncias.

Semjase and “Billy” Eduard Albert Meier

Vejamos como nos chegam através das narrativas dos contatados aspectos das relações entre eles, os extraterrestres. Tomemos p. ex. uma descrição já clássica dos chamados Grays, uma tipologia extraterrestre, amplamente conhecida no meio ufológico, em interação com os terrestres. Nesse caso, trata-se da narrativa do contatado Suíço Eduard Albert Meier, mais conhecido como Billy Meier:

… segundo Meier, os pleiadianos(seus contatantes) dizem que um dos aspectos fundamentais da sua missão é advertir a humanidade sobre os grays [Cinzas]. Eles a explicam da seguinte forma: ‘Também há diferentes formas de vida que adquiriram muito conhecimento e se livraram dos seus ambientes. Viajam pelo espaço e ocasionalmente vêm a Terra. Muitos deles são criaturas bastante desagradáveis e vivem em um tipo de barbarismo que é quase tão ruim quanto o terrestre. Devemos ficar atentos com eles porque atacam e destroem tudo que encontram em seu caminho — muitas vezes destruíram planetas inteiros ou forçaram seus habitantes à escravidão. É uma das nossas missões advertir as pessoas da Terra sobre estas criaturas’.”(SALLA, 2015)[1]. Grifo nosso.

Ora se essa descrição, levada ao pé da letra, não nos mete medo? Para muitos, no entanto, é uma mensagem tranquilizadora. Muitos de nós aceitamos essa condição de tutela alienígena sem reservas. Mas veja como a postura dos Pleiadianos inabilita os chamados Grays a uma aceitação social plena, estigmatizando-os desde já perante nós, os terrestres. E nós, de quebra, somos também inferiorizados:

“… um tipo de barbarismo que é quase tão ruim quanto o terrestre.”

Diante disso, muitas perguntas poderiam ser feitas, p. ex. até que ponto não somos parte de um conflito ou disputa em curso? Ou por outro lado, até que ponto não extrapolamos ou projetamos nossas relações conflituosas e colonialistas para esse novo cenário?

Ilustração dos tipos Grays menores. Extraído de megacurioso.com.br

Além de Meier, citado acima, os estudos das abduções induzem à estigmatização dos Grays devido a lembranças ruins destas experiências relatadas por muitos abduzidos. Os pesquisadores David Michael Jacobs, Gilda Moura, Bud Hopkins, John Mack, entre outros, apontam análises bastante detalhadas sobre os Grays.  Para vários destes pesquisadores existe uma espécie de função operacional para os pequenos Grays. Talvez esta que parece uma função operacional, fria, objetiva, revestida de brusquidão, se confunda com nossa noção de malignidade.

Veja também, como publicado em outros artigos anteriores do autor, que nessa relação, a hierarquização acontece a partir da leitura do corpo, um comportamento comum entre nós. Aos extraterrestres de maior estatura é atribuída uma função de liderança e benignidade. Por quê estes, já não são vistos como operacionais? De quem é essa valorização do caráter de liderança? Por que ela é revestida de superioridade e de maior respeito e simpatia? Isso não parece um valor muito característico de nossas relações racializadas, presente em nossa divisão social do trabalho?

Ilustração de tipos grays de alta estatura.

Há um caráter contraditório nas narrativas. Muitas delas tratam a relação com os Grays de forma positiva, apesar de situações que apontam o contrário. Mesmo as abduções, não são todas avaliadas como necessariamente ruins. O abduzido é levado, examinado e deixado de volta. Não é uma relação onde os indivíduos são consultados se querem dar uma voltinha pelo espaço ou visitar uma nave mãe, etc.. Nesse sentido é uma relação intrusiva. Também pode não ser suficiente para caracterizar uma boa relação o fato de não haver a lembrança de dor nenhuma. Há aí muitos desconfortos. Há incômodos que são lembrados. As pessoas são retiradas de suas casas e levadas no meio da noite, em muitos casos, para uma espécie de laboratório onde são examinadas.[2]

Um dos contatados que define muito positivamente a ação dos Grays é o Prof. Laércio Fonseca. Para ele os Grays foram os primeiros seres com os quais ele teve contato. Que são seres amorosos e simplesmente cumprem uma programação. Diz ele que se trata de seres programados pelo Comando Ashtar para fazer abduções.

Observem que há uma disposição social hierárquica entre terrestres e extraterrestres como se fosse uma relação entre tutelados e tutores. E esta relação tutelar é uma relação aceita pelo contatado. Aliás, não é comum que contatados questionem o seu contatante no sentido de não aceitar e/ou eventualmente confrontar alguma de suas explicações. Mesmo que elas não façam sentido para um senso mínimo de racionalidade e lógica, o contatado não discute, apenas relata o que lhe foi dito. As incoerências eventualmente percebidas por alguns de nós, acerca de explicações recebidas, quando manifestadas, são normalmente atribuídas a nossa ignorância de certas variáveis que eles dominam e nós ainda não. Em alguns grupos que se formam em torno de contatados, ocorrem perguntas e respostas ao contatado e em alguns casos o contatado se compromete em levar ao contatante perguntas que ele não se sente competente para responder no momento.

Existem relações de conflito entre tipos ou “raças” de seres contatantes como o caso de Pleiadianos e Grays, visto anteriormente. Não tenho uma avaliação estatística acerca deles. Pode ser uma boa tarefa de pesquisa a ser realizada. As narrativas falam de tipologias alinhadas ou em oposição, umas em relação a outras. Falam de grandes guerras que disputaram posições e espaços inimagináveis para nossa condição atual. De relações interplanetárias a relações entre universos.

Nós, os terrestres, o grupo interno nessa relação, colocamo-nos em grande medida, numa situação de subordinação àquele que chega. Essa é uma atitude de submissão ou subserviência? Motivada por quê? Por uma inescapável condição natural? Ou esta é uma condição propositalmente naturalizada para efeito de dominação interna?

Vejamos certas relações em nosso ambiente doméstico. Podemos dizer que seja uma regra geral interna a todos os povos da terra, sempre receber bem um estrangeiro? Algumas nações ou povos são mais amistosos que outros. Isso é um fato. Mas, de uma forma geral o que podemos dizer é que, precisamos de diplomacia, motivação para a interação, empatia, conhecimento do outro, familiaridade, etc… Dessa forma se constrói relações prazerosas, agradáveis ou desagradáveis. A submissão ou subserviência na relação entre os povos, antes desconhecidos uns dos outros, nunca foi gratuita. Quase sempre, em nossa história, foi resultado de grandes conflitos ou negociações em torno de interesses. O entendimento entre partes rivais internas fazem parte, digamos de um contrato social, para que o conjunto da sociedade sobreviva e avance. Esporadicamente estas rivalidades internas despertam e geram instabilidades políticas, econômicas e sociais.

Por outro lado, para muitos de nós, o absurdo é acreditar que quem vem de fora de nosso planeta, possa estar motivado por interesses escusos ou obscuros como nos explorar de alguma maneira. Esse comportamento receptivo e irrestrito, talvez seja decorrente de nosso religiosismo. Pensar o extraterrestre como angélico, divino, nossos protetores. A partir das narrativas, percebemos que devemos nos sentir protegidos. E na citação anterior, protegidos por uns (Pleiadianos), da relação com os outros (Grays). Como se fôssemos, nesse caso, um objeto de disputa externa.

 É a partir das narrativas de contato com extraterrestres, de onde se tem a descrição da missão e intenções destes, que um alinhamento automático e muitas vezes impositivo acontece.

Embora o contatado se coloque na modesta posição de intermediário. É uma posição ambígua. Alguém que, numa relação, recebeu inclusive o que não pediu pode ser também considerado vítima. Mas que diante do impacto da experiência nos seus referenciais e da responsabilidade para com os seus, assume a missão de divulgador. Às vezes é uma missão involuntária, quando lhe é dito que deve contar a sua experiência, outras vezes é voluntária no sentido de assumir por conta própria contar o que viveu ou ainda vive. Mas o que isso nos diz parece que ainda está longe de compreendermos.

A narrativa é uma pequena parte do resultado dessa interação. Um resultado muito parcial do que foi compartilhado a partir do contatado terrestre. A partir daquele que experimentou, e só por ter experimentado, narrou experiência de contato. O quanto elas traduzem também, nossas representações? Impossível saber por agora.

De qualquer forma acreditar que em essência o que vem de fora é bom é o mesmo que acreditar que em essência o nativo terrestre é bom. Lembremos que estas crenças e essencialidades nos possibilitaram séculos de história e filosofia:

p. ex. para o filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)… “O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros”... Ou seja, o homem nasce bom, e a sociedade o corrompe. Há quem não concorde. Augusto Cury (1958) médico psiquiatra, professor e escritor brasileiro diz que essa ideia precisa de reparos: “para mim, o homem nasce neutro e o sistema social educa ou realça seus instintos, liberta seu psiquismo ou aprisiona. E normalmente o aprisiona.”

Já o filósofo inglês Thomas Hobbes  (1588-1679)  acreditava que o homem era naturalmente “mau”, bárbaro e egoísta. ” o homem é o lobo do homem”.  Em seu estado de natureza, o ser humano estaria sempre disposto a sacrificar o bem-estar do próximo em nome de suas vontades.

Em meio a tantos essencialismos, é muito importante que reorientemos nosso modelo desenvolvimentista expansionista para servir a nós mesmos com toda a beleza de nossa diversidade.

Colonização terrestre x extraterrestre

Lembremo-nos do item “O Expansionismo e a negação civilizatória”[3] visto anteriormente, para tentarmos correlacionar os aspectos relativos à colonização terrestre x extraterrestre e encerrarmos esta série de pequenos textos. Nas narrativas de contato com extraterrestres se observa que tais civilizações migram de sistemas, galáxias, dimensões, etc… E nessa migração colonizam as regiões por onde passam. Que sentido têm estas colonizações? Exploração de recursos naturais? De que tipo? Que artifícios  serão utilizados no processo inicial de interação com os povos das novas colônias? Há alguma semelhança com os processos de colonizações internas entre etnias no planeta terra?

Nota-se que em muitas narrativas, falar de um processo de colonização é inadequado. Parece mais expansão de territórios que vai desde a criação e preparação de planetas em um processo por alguns chamados de “terraformação”[4] até a criação de atmosfera adequada, semeadura e implantação de formas de vida com níveis de complexidade variados. Um processo longo e complexo que tal como apresentado nas narrativas não podemos alcançar com um conceito hipotético, nem tampouco com o nosso olhar histórico de hoje.

Fiquemos então, com o tempo presente, com o nosso ponto de vista limitado à leitura dos sinais mais próximos e com as categorias de pensamento já apreendidas e experimentadas, às quais nos têm permitido a vida em sociedade, ainda que em um nível relativamente rudimentar.

Um processo de interação, mesmo que com vistas à exploração ou criação de colônias de outro tipo, que possa fugir muito de nossa experiência terrestre, pode representar ensaios interativos de um tipo complexo, os quais levarão ainda muito tempo para compreendermos na prática. Isso não exclui as hipóteses alternativas de uma relação cooperativa ou competitiva entre nós e eles. Talvez tenhamos escolhas a fazer. Talvez não tenhamos essa oportunidade. É mais fácil acreditar que a regra esteja mais para a possibilidade de escolhas e que a exceção esteja na ausência delas. Uma vez que sabemos que em termos de idade as probabilidades apontam para a existência de civilizações mais experientes. Daí, também, a ideia comum de que algumas delas possam ser nossos tutores ou criadores.

Vamos imaginar que para quem observa de fora esse seja um desdobramento em aberto. Oferecer ou não escolhas. Já para quem está dentro, a interação deve contar com alguma previsão de resultados baseados na experiência vivida. Não é possível abrir mão do passado para viver um presente totalmente desconhecido. Nesse sentido não poderá haver nenhum contato que traga mudanças repentinas. Mudanças aceleradas sim, mas não parece fazer sentido haver saltos. O processo interativo entre povos, não importa se de origem continental ou planetárias diferentes, deve ser construído. E creio que o está sendo, neste exato momento. Lenta e progressivamente, como haveria de ser, da natureza dos processos humanos.

Senão vejamos p. ex., diferenças físicas podem ser eleitas ou percebidas como relevantes para a classificação racial de um lado e de outro da interação. Num processo também lento, construído historicamente. Nós já fazemos isso com nossas simpatias ou antipatias ao tipo físico, às aparências entre terrestres. Como serão os desdobramentos dessa classificação, disposição e alinhamentos apreendidas em nossa relativamente curta existência é o que vamos ver.  Serão diferentes daquelas que elegeram os europeus na relação com os vários povos por eles conquistados, subjugados ou colonizados com a expansão imperial da Europa no século XV? Ou seja, haverá de fato uma racialização desse mundo maior? Certamente, haveremos de descobrir se muito desses racismos, que vivemos aqui na terra ao longo de nossa história, continuarão numa perspectiva colonialista e imperialista espaço afora.

Voltando ao caso Billy Meier: “Uma das muitas colônias espaciais humanas geradas pelos lirianos foi estabelecida em planetas no sistema estelar de Rígel, a estrela mais brilhante da Constelação de Órion. Em algum momento de sua história, a população de aspecto nórdico de Rígel sofreu uma destrutiva guerra civil e foi dominada pelos grays. De acordo com o escritor George Andrews, um ser nórdico do sistema estelar de Prócion chamado Khyla, teria dado muitas informações sobre os rigelianos, procianos e grays a um contatado humano — as informações eram consistentes com as de outras fontes e Andrews concluiu que eram confiáveis.”(SALLA, 2015)

É possível pensar tais informações como confiáveis? A narrativa quer mostrar com tais afirmações a existência dos conflitos e sugere a partir de valores humanos, terrestres, como confiança, a possibilidade de alinhamentos terrestres em meio a estas relações conflituosas. A ideia de “muitas colônias espaciais humanas” é descrita como uma ideia boa, o que entra em conflito com a ideia que temos de colônia. Colônia para nós é sinônimo de exploração. E a população de aspecto nórdico, à qual o contatado se alinha, uma vez que é vista como positiva é vitimada pelos Grays. Estes últimos, negativos, portanto não alinhados ao contatado e seus contatantes.

O contatado descreve Khyla com reverência, admiração e alto grau de valorização estética. A leitura que é feita de Khyla é de um aliado que inspira sua simpatia. Diz que

“ele parecia um humano. Era bonito, alto, esbelto, mas musculoso, masculino e etéreo. Ele parecia ter os olhos, natural ou artificialmente, contornados de preto, como se fossem feitos com carvão. Seu rosto era belo, mas definitivamente masculino. Tinha a face magra, com maçãs do rosto altas e penetrantes, olhos azul-cobalto, cabelos bem loiros e compridos, quase até o ombro. Tinha pescoço musculoso. A sua pele era pálida, com acentuada brancura. É difícil saber sua altura exata por causa das circunstâncias do nosso encontro, mas era algo entre 1,8 e 2 m”. (SALLA, 2015)

Khyla é um colonizador de mundos.

Vejamos como os extraterrestres contatantes de Eduard Meier, que têm como uma das suas missões advertir as pessoas da terra acerca do caráter nocivo dos Grays, se auto definem:

“Semjase, a mulher pleiadiana que estabeleceu contato com o Suíço Eduard Billy Meier, assim descreveu o seu povo: ‘Não somos guardiães dos seres da Terra nem anjos enviados por Deus ou similares. Muitas pessoas imaginam que observamos a Terra e os seres dela e que controlaríamos seus destinos. Isto não é verdade, porque nós só realizamos nossa própria missão, que nada tem a ver com supervisionar ou regular os destinos da Terra. Assim, está errado nos apresentarem como mensageiros extraterrestres superiores e guardiães”(SALLA, 2015).

Qual seria a postura do contatado e de todos aqueles que tomam conhecimento de sua narrativa, frente à forma como se define o contatante? Parece-me que há uma expectativa contraditória em relação a admiração, quase uma adoração gratuita de contatados e seus seguidores ou admiradores, para com alguém que declara não ser guardião dos seres da Terra. Nem anjo enviado por Deus ou similares e que não controlam os destinos humanos nesse planeta. No entanto, é muito comum um comportamento predominantemente religioso frente aos seres contatantes a partir de grupos de pessoas que se formam em torno do contatado. Os chamados UFOCultos.

É como se dissessem, estou aqui cumprindo minha tarefa nesta obra de engenharia coletiva e não quero a sua adoração e gratidão por isso. Eu apenas faço o que tenho que fazer e isso por si só é minha recompensa. Não me penso superior nem inferior e nem penso vocês como inferiores ou superiores. Não somos mensageiros extraterrestres. Ou seja não trazemos mensagens de ninguém, nem nos posicionamos como superiores, nem como guardiões de vocês. Vocês também têm sua parcela de contribuição nesta obra. Façam a sua parte.

Isso nos impede de pensar a relação tutelados x tutores para as relações terrestres x extraterrestres.

Ao mesmo tempo, a própria narrativa aponta como uma das missões dos Pleiadianos, “advertir as pessoas da terra sobre estas criaturas”, os Grays, uma raça descrita por eles como perigosa. Aí há certa contradição, pois a advertência não deixa de ser uma atitude protetora, cuidadora e que influencia sim nos destinos humanos nesse planeta. Porém, ainda que a advertência tenha influência nos destinos humanos – no sentido de formar opinião – o fato de fazê-la ou de tê-la como missão não implica necessariamente, em quaisquer compromissos no plano dos afetos.

 Não há humanidade sem respeito à diversidade

Temos nós, os terrestres, uma forma característica, talvez, muito peculiar, de pensar a própria humanidade. Carregada p. ex. de essencialismos reducionistas e naturalizantes das representações racializadas. Isso pode estar muito longe da forma como outras civilizações se pensam. Penso eu que teremos um dia que abrir mão de posturas que nos limitam aos binarismos das relações de poder presentes em discursos e narrativas, a fim de avançarmos na construção de relações civilizatórias concretas.

Em seu texto “Que negro é esse na cultura negra”, “… Hall nos convoca a livrar-nos dos essencialismos culturais e a ‘dirigirmos nossa atenção criativa para a diversidade e não para a homogeneidade da experiência negra’. Penso que esse apelo vale para todas as formas de essencialismos. Para Hall, a perspectiva que enxerga as identidades negras como as “tradições deles versus as nossas”, mutuamente excludentes, autônomas e autossuficientes, é incapaz de compreender as formas híbridas da estética diaspórica. Hall afirma que é necessário um movimento para além dos essencialismos dentro da cultura e das identidades negras, para além da oposição entre “nós” e “eles”: ‘negro não é uma categoria que possua uma essência’; por isso, é necessário promover o ‘fim da noção ingênua de um sujeito negro essencial’ e defender que não há como escapar das políticas de representação. Neste sentido, Hall sustenta novamente que as identidades culturais são construídas dentro da representação, na forma como somos representados para os outros e para nós mesmos em contextos específicos e historicamente datados. (Hall apud ZUBARAN, 2016).

Suponho que livrarmo-nos dos essencialismos culturais no âmbito de nossa aldeia global constitui-se de tarefa necessária a fim de alcançarmos um nível de convivência saudável respeitosa e digna de nossa origem comum. O desafio é reconhecermos na diversidade humana, a partir do estágio em que vivemos a humanidade planetária. Talvez, condição identitária fundamental para um mínimo de interação e entendimento com outras humanidades. Porém sem os vícios essencialistas, que não poderemos deixar para  perceber melhor quando no plano concreto das relações inter-civilizatórias ou inter-raciais extraterrestres, seja lá como quiserem chamar estas relações.

Perpetuar estes processos essencializadores das relações, tem sido o mesmo que nos colocarmos dócil e servilmente perante outro, um desconhecido. Que pode até nem querer ou nem reconhecer estas condições binárias. Que seja qual for sua origem o que importa é a natureza da ação construtiva em favor de um conjunto maior, talvez rizomático, harmônico ou não, do qual seja partícipe tanto quanto nós. Para além dos essencialismos étnicos, raciais, de classe ou de origem regional ou planetária, o que importa é a consciência de estarmos aqui e agora, construindo cooperativamente um mundo melhor para todos.

Referências

Canal do Grupo Ufológico Bezerrense “OS GRAYS SÃO POSITIVOS OU NEGATIVOS ?” https://youtu.be/YY4rG5aVz9Q  visto em 01/05/2020

https://pt.wikipedia.org/wiki/Terraforma%C3%A7%C3%A3o visto em 30/07/2020

GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. LTC, 1981.

SALLA. Michael E. As motivações dos extraterrestres que interagem com a humanidade. https://ufo.com.br/artigos/as-motivacoes-dos-extraterrestres-que-interagem-com-a-humanidade.html, publicado em 01/08/2015 e visto em 01/05/2020 e Rev. UFO 224

Semjase and “Billy” Eduard Albert Meier em https://br.pinterest.com/pin/558094578792755960/  imagem vista em 30/07/2020

Revistas UFO nºs 35, 59 e 224

ZUBARAN, MARIA ANGÉLICA. WORTMANN, MARIA LÚCIA. KIRCHOF, EDGAR ROBERTO. “STUART HALL E AS QUESTÕES ÉTNICO-RACIAIS NO BRASIL: CULTURA, REPRESENTAÇÕES E IDENTIDADES”, in Projeto História, São Paulo, n. 56, pp. 9-38, Mai.-Ago. 2016.

Notas

[1]  Não estabelecemos nenhum critério que valide ou invalide narrativas de contato. A maioria delas são polêmicas e não é a intenção validar uma em detrimento de outras. Todas são importantes para os objetivos aos quais nos propomos.

[2] Veja Canal do Grupo Ufológico Bezerrense “OS GRAYS SÃO POSITIVOS OU NEGATIVOS ?” visto em 01/05/2020

[3] No endereço  https://ufologico.com.br/afirmacao-negativa-e-lembrancas-encobridoras/ , veja o ítem “O Expansionismo e a negação civilizatória”

[4] Terraformação é a denominação dada ao processo, até agora hipotético, de modificação da atmosfera, da temperatura, da topografia e ecologia de um corpo celeste sólido até deixá-lo em condições adequadas para suportar um ecossistema com seres vivos da Terra. Wikipédia

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