A ufologia e a matriz colonial de poder (6)

Autor: Wilson Geraldo de Oliveira

A importância da alteridade

Não podemos dizer que o racismo nas sociedades terrestres, seja apenas um simples fenômeno ideológico, como um conjunto de ideias erradas, imposto a partir de generalizações apressadas de experiências pessoais. Pelo contrário, está no imaginário de grande parte das sociedades a ideia de que determinadas diferenças ou marcas corporais, como a cor da pele p.ex. , tem a função de hierarquizar as pessoas. É um fenômeno intencional. Essa é a herança de um erro histórico de cujas persistências haveremos de nos livrar.

Ocorre que a partir do momento em que acreditamos, ou aceitamos como natural a hierarquização, ou seja, a ideia de superioridade de um tipo sobre outro, de uma raça em relação a outra, a dominação toma a dianteira. Passa a ser determinada pelos interesses de uns sobre outros. Daqueles que se pensam superiores e se interessam pela dominação, sobre aqueles que se pensam inferiores e se submetem à dominação. E estes interesses em nossa sociedade são interesses, predominantemente, políticos, econômicos e epistêmicos.

De tal sorte que, constatamos nas nossa formas de organização hierarquizadas o reflexo de um pensamento hierarquizado, na política, na economia, no saber, etc.  Ao aceitarmos  participar de quaisquer atividades norteadas por competição e rivalidades, em quaisquer campos da vida social estaremos reafirmando o mau exemplo “civilizatório” ao qual já estamos acostumados e nada tem de realmente civilizatório.

Embora sejam ideias ou pensamentos, vamos lembrar que são a partir das ideias e pensamentos que chegamos aos comportamentos e relações sociais. Isso vale para a ideia de raça que levou e pode levar à dominação e vale para a ideia de um modelo civilizatório que se encontra em nosso horizonte como um ideal a ser construído. Há quem diga “nossa atual civilização”, “a civilização contemporânea”, etc. Mas, não há civilização humana na terra. O que temos é uma vontade, um desejo de construir um ideal civilizatório.

Se estamos aprendendo aqui e agora a competir, a rivalizar, a dominar o outro, o faremos a partir de artifícios classificatórios sem fundamento humanístico. Isso não é um ideal de civilização. Ou se estaremos, ao contrário, aprendendo a cooperar na diversidade, reconhecendo o outro como um igual em humanidade, aceitando as diferenças. Aí sim, caminhamos no sentido de um ideal civilizatório. Aquilo que mais exercitarmos, será a nossa bagagem para vivermos no planeta ou fora do planeta. Sós com nossas diferenças internas ou juntamente com outras civilizações de outras origens e também diferentes.

Do ponto de vista das organizações e construções sociais, constatamos uma diversidade de raças em nossa sociedade terrestre (índios, brancos, negros, azeitonados, judeus, ciganos, etc) e do ponto de vista genético apenas uma, a raça humana. As diferenças quando não foram aceitas e respeitadas, sempre foram instrumentalizadas por  alguém ou algum grupo cujos interesses estiveram alinhados, uns contra outros.

O avanço da Genética no último século, embora esta seja apenas uma parte da equação, nos permitiu perceber a realidade dos nossos próprios preconceitos, construídos, modificados e instrumentalizados por interesses, ao longo da história de nossos povos.

Percebemos que as mudanças de comportamento da sociedade operam, no ritmo e na forma, diferentes das mudanças nos segmentos especializados da ciência. Ocorre muito lentamente. Porque certos conhecimentos ou descobertas científicas, propositalmente, a depender de sua origem, demoram para serem divulgadas e também para serem assimiladas pelas populações marginalizadas ou periféricas.

É importante considerarmos que certos conhecimentos são apropriados por instituições sociais, jornalísticas, políticas, religiosas e educativas, a pretexto de adaptar à linguagem e simplificar o sentido para a seguir divulgar. É uma forma de controle epistêmico, fruto da hierarquização dos saberes. Estes conhecimentos são simplificados e instrumentalizados. No mais das vezes em vez de libertar, sustentam esquemas de poder, atendendo aos interesses ideológicos e da fé política ou religiosa de alguns.

A sociedade, estratificada, dividida em grupos e segmentos que se antagonizam facilmente, também não respondem às orientações ou descobertas científicas prontamente e de forma homogênea. Estamos longe dessa condição. Foi assim com a ideia de raça e é assim com outros assuntos de interesse coletivo.

Temos visto e convivido, com muitas dificuldades nesse sentido, recentemente. Um valioso exemplo é o da comunicação científica em torno da pandemia da COVID 19, em que a resposta da sociedade é muito valiosa para o sucesso das ações preventivas e interventivas. As respostas coletivas aconteceram muitas vezes, permeadas de antagonismos políticos, desprezando o valor científico das orientações.

Daí a importância de refletirmos insistentemente sobre esse tema da alteridade, das relações com o outro, com o diferente. Pode parecer prematuro para o movimento ufológico devido a particularidades internas e também para toda a sociedade. Afinal, as determinações do racismo têm muitas causas, implicações e correlações que ainda desconhecemos.

Podemos ter dificuldades em pensar o outro, também, quando com o outro, em um mundo de relações interplanetárias. Mesmo considerando o laboratório diversificado e altamente educativo que representa a vida na terra em termos de alteridade. Esse pensar o outro, com fronteiras ampliadas e  relações realmente racializadas, seja do ponto de vista genético, de origem, ou de outros pontos de vistas,  exigem reflexões e aprendizagens que façam a diferença na equação.

Uma nova árvore da vida
Ilustração de Ylanite

As aparências corporais dos extraterrestres relatadas, por vezes romanticamente, nas narrativas de contato, sugerem uma variadíssima quantidade de raças (linhagens filogenéticas) e outras formas. Ou seja, a ideia da diversidade racial, humanoide e não humanoide espaço afora, contempla, além da única espécie humana terrestre, uma ampla variedade de tipos, que sugerem uma evolução a partir de outras espécies animais e também outros processos criativos, tecnológicos e evolutivos da vida. Que seja um novo capítulo da história da evolução natural, para além do paradigma Darwiniano, pedindo para ser escrito.

São muitas semelhanças e também muitas diferenças corporais.

Algumas destas diferenças são muito acentuadas e mostram um entendimento racializado, dessa comunidade ampliada, de seres inteligentes do espaço. A própria noção de inteligência como valor universal, pode ser que venha a ser posta em perspectiva. Mas, as aparências do corpo, as formas representadas, podem ser vistos através da vasta quantidade de  ilustrações tipológicas baseadas em testemunhos  e narrativas de contato, produzidas e publicadas pelo movimento ufológico. p. ex PEREIRA, 1991; THICCHETTI, 2014, 2018; BARROS, 2015, entre outras.

A genética, ao demonstrar que só existe uma raça humana na terra, não eliminou comportamentos racistas em nossa sociedade. Agora, nas últimas décadas do sec XX e início do sec XXI, com as narrativas de contato com extraterrestres e com as perspectivas de avanço das ciências e das técnicas de navegação no espaço, portanto, da astronáutica, o sentido biológico de raças, hierarquicamente dispostas, voltou a ocupar o pensamento social.

É desejável, que as desconstruções teóricas acerca da ideia de raça, aliadas ao combate à “colonialidade”(1) , representem significativo avanço na compreensão destes novos contextos e relações e contribuam para a construção de um pensamento civilizatório.

Como a noção de Modernidade/colonialidade pode contribuir com o pensamento ufológico e suas construções sociais?

ufologiaobjetiva.com.br/classificacao-de-jader-pereira/

Essa diversidade de tipos raciais extraterrestres, presentes nas narrativas de contato, representa, desde já, construções sociais. São parte do que podemos chamar provisoriamente de pensamento ufológico, construído a partir da década de 1940. E o fato de não termos conscientemente, o cotidiano da vida, em sociedade com os extraterrestres, não nos impede de criarmos ou aceitarmos  hierarquizações e alinhamentos, que possam resultar em relações racistas. Portanto, em relações de dominação internas ou externas baseadas na diferença.

Vale lembrar mais uma vez, que as construções sociais em torno da ideia de raça, em nosso meio terrestre, foram feitas com o objetivo da dominação do outro e usadas para garantir o expansionismo do capital em suas várias etapas (mercantil, industrial e monopolista) através da exploração econômica. Nesse aspecto, o estudo do “colonialismo”(2) e  da colonialidade como parte da “matriz colonial de poder”(3)  representa muita utilidade teórica para pensarmos o aqui e agora das nossas relações internas e as relações externas com outros povos do espaço. Ou seja, na perspectiva da ufologia como movimento social, ou na perspectiva das exociências e ciências do espaço que vêm se delineando como perspectivas investigativas da vida para além do planeta terra.

É importante alcançarmos conceitos abrangentes para explicar as relações de dominação em nosso meio.  Um desses conceitos parece ser o conceito de modernidade/colonialidade. Compreendido como um duplo conceito por  Restrepo; Rojas, 2012, como uma narrativa europeia/ocidental que tem na colonialidade seu suporte e fundamento. A modernidade é entendida como um modo de vida e um projeto civilizatório. A colonialidade é considerada o outro lado da modernidade, seu lado oculto, como uma moeda que tem duas faces. A colonialidade é constitutiva da modernidade, ou seja, sem colonialidade não há modernidade. (apud TONIAL, Felipe A.L et al. 2017)

Enrique Dussel, filósofo argentino, diz que modernidade não pode ser entendida como um movimento que se origina, desenvolve e reproduz a partir da Europa, como um caminhar histórico que nos remete ao Renascimento, à Reforma Protestante, ao iluminismo, à Revolução Francesa, ao desenvolvimento do capitalismo e assim por diante, sem considerar a relação dos povos europeus e sua história com a história da colonização dos povos nas Américas. A modernidade surge, segundo ele, entre o século XV e XVI com a chegada dos espanhóis e portugueses nas Américas. Diz ainda, que a modernidade se originou, de fato, na Europa, mas nasceu quando a Europa se confrontou com o/a outro/a, controlando-o/a, vencendo-o/a, violentando-o/a. Ou seja, a modernidade, nasce quando a Europa pode definir-se como um “ego descobridor”, conquistador e colonizador da alteridade. (apud TONIAL, Felipe A.L et al. 2017) – grifo nosso.

O duplo conceito modernidade/colonialidade parece bastante abrangente e suficiente para explicar e iluminar relações de poder e subordinação decorrentes do colonialismo e que perduram até os dias de hoje. O estudo dos UFOs/OVNIs não escapou dessas relações de poder.

O poder epistêmico na formação da ufologia

Ilustração – o poder epistêmico

As razões para a ufologia ser considerada uma para-ciência ou pseudo-ciência ou por não estar representada nos ambientes acadêmicos e grupos da pesquisa formal da ciência, decorre do poder epistêmico que se constituiu na sua origem com o propósito de rejeitá-la.

Ela foi submetida a um processo de classificação epistemológico pelas epistemologias modernas. Sua existência passou a ser um incômodo para aqueles que definem uma centralidade na produção do conhecimento. Em razão disso ela se tornou invisibilizada.

Essa estética colonial nos impossibilita ver, sentir e pensar o que não tenha a percepção moderno/colonial como ponto de referência.  A ufologia, nessa perspectiva, apesar da relativa inadequação do nome é, como sempre foi, desde as origens, uma forma de organização questionadora e instrumento social de luta pelo direito de existir. E sua razão de ser é a busca por informação e conhecimento de algo que a inquieta, que a instiga a pensar. Instiga os envolvidos diretamente com o problema e a todos nós, quando dele tomamos conhecimento.

A ufologia como movimento social, sustenta a partir de suas ações e práticas investigativas há mais de 7 décadas, que se trata de um conhecimento muito importante para toda a humanidade terrestre. Ela produziu conhecimento, ainda que atomizado. O trabalho de todos os ufófilos e ufólogos registrando e compartilhando informações e saberes, sinaliza o caminho e o quanto caminhamos.

A ufologia e suas tendências ou categorias internas, nunca foi uma ciência, apesar da reivindicação que representa. Reflexões importantes acerca do que seja ou possa vir a ser a ufologia existem várias. Os rótulos de paraciência, pseudo-ciência ou protociência são formas de classificação a partir de um modelo de pensamento moderno/colonial que diz isso pode, isso não pode. E o status de ciência desejado por muitos, nunca foi possível.

Todos estes rótulos foi o que sobrou das lutas daqueles que buscaram inserir o tema no contexto científico. Um contexto moderno/colonial que desautorizou este saber.  Já a ufologia como movimento social nunca precisou pedir licença. Aliás, se não fosse a sociedade civil e algumas contribuições militares aqui e acolá, não teríamos nem a liberdade de falar sobre o assunto. Foi a ufologia como movimento da sociedade civil  que manteve, nestes últimos 70 anos, acesa a chama do conhecimento que acumulou e manteve hasteadas as suas bandeiras de lutas.

Hoje podemos dizer que pelo menos duas dessas bandeiras estão muito presentes no movimento ufológico mundial: a) A primeira bandeira pela PESQUISA UFO/OVNI, interdisciplinar e à exaustão; b) A segunda bandeira (PELA LIBERAÇÃO DE INFORMAÇÕES), esta, surge em decorrência do resultado das lutas pela primeira bandeira.

Suas bandeiras de luta se constituíram a partir das relações conflituosas entre o Estado e a sociedade civil. O conflito foi e ainda é em certo sentido, um conflito de narrativas. O Estado com sua dupla preocupação:

a) manter o controle da informação sobre o assunto no âmbito do Sistema de defesa militar e,

b) garantir que sua narrativa tivesse respaldo acadêmico. E ainda que sua narrativa não fosse aceita plenamente, ela teria que ser mantida sob controle do Estado. E foi.

Em ambos os casos as  prerrogativas do Estado moderno/colonial foram garantidas, ainda que negando a solução do problema. Ora, não existe mais a formalidade do sistema colonial, mas a autoridade dele ainda se impõe através das mentes e instituições. Quem não admite que existe um controle da informação ufológica pelos Estados? Todos admitem e muitos o defende.

É importante lembrar, que a sociedade civil ficou alarmada pelas notícias publicadas nos jornais da época, (década de 1940) e pelo aumento de avistamentos de Discos Voadores. Inclusive com testemunhas de alta credibilidade. Isso pode ter estimulado a multiplicação dos relatos. Mais do que isso,  evidenciou o conflito em torno da solução do problema que dura até hoje. A ideia de controlar o saber, a informação, manipular a opinião pública no sentido de ludibriá-la não se justifica em hipótese nenhuma num Estado democrático.  Esse procedimento é típico dos tempos coloniais e imperiais. Mas, se o colonialismo termina, como diz Quijano, a colonialidade se propaga de diferentes formas ao longo do tempo.

O nome “ufologia”, só vai surgir no ocidente, 10 anos após o início da série de projetos da força aérea americana (Sign,  Blue Boock, etc) que tiveram a parceria e o suporte conveniente da ciência, na pessoa de pesquisadores importantes como J. Allen Hynek, cuja decepção com os rumos dos projetos o torna um defensor incansável das lutas ao lado da comunidade ufológica mundial. O nome ufologia, surge então a partir de um termo radar, a abreviação UFO, na década de 1950, da qual derivou “ufologia”.(04) (veja nota no final do texto)

Já havia,  na época, uma desconfiança de que as autoridades não atenderiam, a contento, os apelos da sociedade civil por respostas acerca da natureza dos Discos voadores. Após alguns resultados e pronunciamentos públicos ocorridos com o andamento dos projetos, um sentimento de estupefação e indignação, paira sobre a comunidade que aguardava interessada.

Não se duvidava da inteligência e capacidade intelectual dos envolvidos para oferecer respostas satisfatórias. Entretanto, os resultados mostraram a ausência de idoneidade ética e moral das instituições para produzir uma narrativa voltada ao esclarecimento de interesse público. A mesma postura dominadora do saber colonial se repete nas explicações estapafúrdias, incoerentes com as observações e relatos credíveis. O menosprezo do testemunho da sociedade civil se equivale ao menosprezo ao saber nativo e das muitas etnias que viram ao longo dos séculos de dominação europeia a destruição de sua cultura, que ainda continua.

Embora se possa buscar para efeito de uma análise, talvez mais adequada, conceitos já bem trabalhados acerca da noção imperialista de poder, do sistema do capital no mundo, onde os EUA têm ocupado papel central na geopolítica mundial, fiquemos nesse ponto, onde ele reproduz a dominação europeia. A ufologia se funda então sob o domínio da colonialidade. Diz-nos Quijano, em Colonialidade do poder:

“Com efeito, todas as experiências, histórias, recursos e produtos culturais terminaram também articulados numa só ordem cultural global em torno da hegemonia européia ou ocidental. Em outras palavras, como parte do novo padrão de poder mundial, a Europa também concentrou sob sua hegemonia o controle de todas as formas de controle da subjetividade, da cultura, e em especial do conhecimento, da produção do conhecimento.” (QUIJANO, 2005, pag 121)

Observemos que a simples inconveniência do termo Objeto Voador Não Identificado – OVNI/UFO que se impõe, tornando possível o controle do saber. Enquanto o “objeto” não for identificado, o sistema de poder, que assim o definiu, Estado/Ciência, terá a última palavra, o poder para legitimar ou deslegitimar. A aceitação do nome ufologia, estamos falando apenas do nome – veja o quanto o nome é importante para a caracterização do estudo do tema – aconteceu no meio civil, pois, não encontrou respaldo no mundo acadêmico a partir de então.

O nome ufologia não foi criado pela academia e nem a partir de um projeto com respaldo acadêmico. No máximo, a expressão de um desejo de que se estudasse o assunto academicamente. Hoje a partir dos estudos de colonialidade e decolonialidade revelando a persistência da “matriz colonial de poder” pode ser que se torne mais fácil entender o que representou esse desafio da sociedade civil às instituições que controlam essa matriz. Hyneck, já fora dos projetos, denuncia em artigo originalmente publicado na Technological Review EUA em julho/1981:

Imagem cufos.org/Hynekbio.html

“Com certeza, poder-se-ia adotar a teoria segundo a qual o Projeto Bluebook e o Comitê Condon foram parte de uma super enganação (whitewash no original, ato de caiar, cobrir com cal) que os altos escalões de governo, não somente desta nação (NT: EUA) mas de muitas nações, sabem do que está acontecendo, mas estão intencionalmente acobertando os fatos. E eu continuo a receber relatos clandestinos de militares, de que foram envolvidos íntima ou perifericamente em tal acobertamento, mas argumentam medo de represália quando peço uma declaração assinada.” (Hynek, 1981, Trad. A.F. Carmo pag 10-11)

E porque a ufologia não se constituiu desde então como um movimento social, já que não fora reconhecida no mundo acadêmico? Na prática ela se constitui como tal. O que contribui para a persistência do uso do nome ufologia foi e ainda é a expectativa de muitos de que a ufologia possa vir a se tornar uma ciência. Isso pode significar, apenas, que as medidas de controle adotadas à época ainda funcionam. Deixá-la propositalmente à margem, desacreditando-a sempre que possível. Haja vista as políticas de acobertamento posteriores. (HYNEK, op cit) Foi e continua a ser uma alternativa do poder moderno/colonial e serviu para inibir a assunção de mais um movimento social reivindicatório de direitos, em um momento, vale a pena mencionar, em que o Estado se definia como Estado de Bem Estar Social. (05) Veja nota ao final do texto

Só para fechar essa parte de nossas reflexões acerca da Ideia de raça. Uma observação:

a) substituí o título anunciado “O racismo baseado no paradigma colonial” por “A ufologia e a matriz colonial de poder” por entender que poderia ser mais abrangente e me permitiria melhor acrescentar o subtítulo  “O poder epistêmico na formação da ufologia” como forma de trazer a ufologia, como movimento social, para o centro do debate.

Notas:

(01) colonialidade é entendida como uma dimensão simbólica do colonialismo (…) referindo-se a um padrão de relações de poder que opera pela naturalização de hierarquias territoriais, raciais, culturais, de gênero e epistêmicas. A naturalização é o que possibilita a reprodução das relações de dominação. (…) A colonialidade, então, se refere à ideia de que, mesmo com o fim do colonialismo, uma lógica de relação colonial permanece entre os saberes, entre os diferentes modos de vida, entre os Estados-Nação, entre os diferentes grupos humanos e assim por diante. Se o colonialismo termina, a colonialidade se propaga de diferentes formas ao longo do tempo.

(02) colonialismo significa a chegada de um povo, com uma identidade X (os colonizadores/as), a um território de outro povo, com uma identidade Y (os/as colonizados/as) e, pela força política e/ou militar, subjuga essa população para garantir a exploração das riquezas e do trabalho da colônia em benefício dos colonizadores, ficando a soberania do povo colonizado sob os interesses do povo que coloniza (Quijano, 2007).

(03) Matriz Colonial de Poder é um tipo de controle que está baseado na questão da visibilidade, ou da percepção, que é privilegiada pelas epistemologias modernas. Como diz Mignolo, a matriz colonial de poder dá visibilidade para determinadas formas de existência e saberes pela invisibilidade de outros, que passam a ser considerados inferiores e não científicos. Essa estética colonial nos impossibilita ver, sentir e pensar o que não tenha a percepção moderno/colonial como ponto de referência.  (Mignolo, 2011)

(04) A etimologia da palavra ufologia deriva da junção do acrônimo UFO, Unidentified Flying Objects, e o sufixo logia que vem do grego antigo -λογία, que significa estudo, ramo de conhecimento. (…) No Oxford English Dictionary, é atribuída a primeira referência publicada do termo ao Times Literary Supplement de janeiro de 1959, onde se lia: “Os artigos, relatórios e estudos burocráticos que foram escritos sobre este visitante desconcertante constituem “ufologia”. (…) O acrônimo UFO foi cunhado por Edward J. Ruppelt, capitão da Força Aérea dos Estados Unidos e chefe do Projeto Livro Azul. Em seu livro The Report on Unidentified Flying Objects (…) de 1956, Ruppelt declara: “UFO é o termo oficial que eu criei para substituir as palavras discos voadores”. No Brasil, o termo ufologia é amplamente utilizado, apesar do acrônimo UFO ser comumente substituído pelo acrônimo OVNI, não sendo substituído pelo equivalente no português europeu, ovnilogia. (Visto no endereço https://pt.wikipedia.org/wiki/Ufologia em 30/06/2020)

(05) Conhecido como Welfare State, as políticas de bem-estar social proporcionaram o boom econômico do pós-guerra. O Estados Unidos garantia à época uma distribuição menos desigual de renda e criava infraestruturas necessárias a uma vida digna para a maioria da população, investindo em saúde, educação e transporte. Os movimentos sindicais estavam em alta. Era importante inibir mais um movimento social por direito, em especial, o direito à informação, mercadoria valiosa em tempos de guerra fria.

Referências

  • BARROS, Eduardo. TIPOLOGIA EXTRATERRESTRE (eBook Kindle) ed. UFO12. 2015
  • Mignolo. Walter, Palestra “Estéticas Decoloniales” no endereço https://youtu.be/mqtqtRj5vDA  publicado em 2011 e visto em 24/06/2020
  • MONSMA. Karl, “Como pensar o racismo: o paradigma colonial e a abordagem da sociologia histórica”. Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.48, n. 2, p.53-82, jul./dez., 2017
  • PEREIRA. Jader U. Tipologia dos Humanoides Extraterrestres. Coleçãi Biblioteca UFO 01, 1991
  • TONIAL, Felipe A.L et al. “A resistência à colonialidade: definições e fronteiras”. Revista de Psicologia da UNESP 16(1), 2017 pag. 18-24
  • TICCHETTI, Thiago Luiz. Guia da Tipologia Extraterrestre (Segunda edição), Biblioteca UFO. 2018

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