A contribuição das ciências sociais para o tema OVNI

Por Wilson Geraldo de Oliveira

Serão apenas as ciências sociais que oferecem a possibilidade de leituras e reflexões, para o entendimento do tema proposto? É certo que não! As narrativas de contato com extraterrestres estão sempre acompanhadas das ocorrências de interações/observações de OVNIs. Nesse conjunto, que pode-se dizer, indissociável, representam uma parte significativa dessa temática e ressente-se de uma abordagem no mínimo multi e interdisciplinar. Tal como o campo de estudo do turismo que “busca uma evolução para a prática transdisciplinar” (DENCKER, 1998), essa é uma perspectiva metodológica e epistemológica que se abre para a compreensão de temas que extrapolam muitas vezes os campos especializados das ciências.

Inspira-nos a preocupação da Antropologia sobre o pensamento humano. Lembrando a perspectiva apontada por Roberto Cardoso de Oliveira, em como ela se renova e torna-se um campo privilegiado de indagação. A pesquisa empírica e a reflexão teórica se articulam e juntas buscam desvendar o enigma: até que ponto a sociedade se “reproduz” ou se representa, no pensamento? 

As ocorrências ufológicas e as narrativas de contato com extraterrestres, não tem sido uma realidade concreta de pesquisa, no cotidiano das ciências naturais. Será por dificuldades metodológicas?

Representam, no conjunto, apesar das possíveis restrições, do método, uma temática de pesquisa e uma prática construída e defendida pelos ufófilos e ufólogos como um movimento social de grande valor reivindicatório. As narrativas de contato, no entanto, podem ser objeto de pesquisa, estudo, reflexão para as ciências sociais e humanas. Podemos dizer o mesmo das ocorrências em si, dos registros físicos do fenômeno para as ciências naturais? 

No excelente livro “Pesquisa em Turismo” de Alda de Freitas, no cap 2 “A interdisciplinaridade na pesquisa em turismo”, ao citar os objetivos do conhecimento científico, diz ela: “O homem procura conhecer a realidade para poder agir sobre o rumo dos acontecimentos. Por meio das ciências físicas e naturais o ser humano procura controlar a natureza e pelas ciências sociais busca prever os acontecimentos e projetar novos cenários sociais por intermédio de ações de planejamento.” 

Serão as possíveis dificuldades metodológicas das ciências naturais decorrentes do fato de não poderem controlar a natureza, ao lidar com as manifestações ufológicas (OVNIs)? Sua existência já é há muito inquestionável. Porém, até o momento uma significativa parcela desses fenômenos se mostram incontroláveis. Não se trata de fenômeno passível de reprodução ao sabor da vontade do pesquisador. Embora não se possa ainda conhecer a sua natureza, sabe-se, por observação,  que têm vontade própria. Estará aí o desafio?

O fenômeno ufológico em si, é questionador de nossos referenciais, face às interações e interpretações humanas levantadas. As observações e narrativas falam de uma natureza inteligente, de um outro, que além de ser fugidio e enigmático, trás o pressuposto de ser de origem diferente. Se nao é possível o foco direto sobre esse outro, com que ferramentas conceituais será  possível falar de nós em relação a esse outro? 

O saudoso Prof. Roberto Cardoso de Oliveira, em artigo na Série Antropológica nº 29 fala da noção de categorias como centro do pensamento sociológico (sec. XIX) e localizando essa noção historicamente até os dias de hoje, vai indicar autores como Mauss, Durkheim, Claude Lévi-Strauss, Louis Dumont, estes dois últimos herdeiros da mesma tradição intelectual que tratam a “temática das categorias do entendimento” (CARDOSO – 1982). Às quais, inevitavelmente, sempre recorreremos na busca incessante de compreensão da realidade.

Se o assunto é relativamente novo, certamente vai precisar de categorias igualmente novas e talvez até novos métodos. A tradição teórica das ciências sociais é riquíssima em possibilidades de análises. E é dessa fertilidade que nos fala o Prof. Roberto Cardoso de Oliveira. Para ele, a abordagem de Mauss em relação à noção de pessoa e seus desdobramentos em relação a outras categorias, associa-se a “modos de pensar em comuns e modos de agir em comuns” para os diferentes grupos humanos como “uma relação esquecida pelos sociólogos”. (…) “Essas modalidades de pensamento, por serem dentre as representações coletivas as mais essenciais e eminentes ao conhecimento humano, como já dizia Durkheim e por serem igualmente inconsciente, tal como a língua o é para os seus falantes, como acrescentaria Mauss, constituiu-se numa dimensão privilegiada para investigação antropológica e permanece mesmo hoje de extrema atualidade”. (CARDOSO – 1982 – P. 10). 

É nesse sentido que será utilizado como categoria, o termo “contatado” em oposição ao termo “contatante”. Como categoria do entendimento da relação entre terrestre e extraterrestre. Perscrutando o espaço e o tempo. Reavaliando as noções que comunicam as dimensões existenciais.  A partir dessas duas categorias, as relações decorrentes apontam a possibilidade de tratar as narrativas como substrato de uma “situação de contato” que vem sendo gestada no pensamento social. Uma vez que as categorias de pensamento, me parece, tendem a tornar-se cada vez mais intrínsecas ao cotidiano e abrangentes aos diversos coletivos humanos. 

Categorias muito comuns ao “movimento ufológico” (OLIVEIRA, 1995), a partir do qual esse tema tem alcance mundial. As categorias contatado e contatantes, terrestre e extraterrestre, tipologias e raças, espaço e tempo, etc, impulsionadas pelo tema OVNI/UFO, tornam-se populares. Muitos são os tipos e lugares de ocorrência do fenômeno, no Brasil e no mundo, como veremos adiante. Em torno destes lugares, narrativas e eventos relacionados atraem turistas de todo o planeta. (Um bom exemplo é o Museu Internacional de Ufologia em Roswell, New México – EUA – https://goo.gl/lJZwht

O pensamento que mobiliza o imaginário e vice-versa, leva-nos a revisar conceitos, noções e valores, que pensávamos, já há muito consolidados. As noções de espaço, tempo, matéria, energia e lugar, mas também a noção de gênero, raça, evolução, vida e sua diversidade.

Adiante, trataremos sucintamente de algumas destas categorias e  veremos alguns contextos onde elas podem ser encontradas.

Próxima postagem: A ideia de raça

Referências:

DENCKER, Alda de Freitas Maneti. “Pesquisa em turismo: planejamento, métodos e técnicas”, São Paulo: Futura, 1998

LÉVI-STRAUSS. Antropologia Estrutural. (1974)

OLIVEIRA, Wilson Geraldo de. O Movimento Ufológico – Reflexo da necessidade de um modelo de compreensão da realidade. Dissertação apresentada ao Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília em 14/12/1995. Orientador: Prof. Martin Alberto Ibañez Novion

OLIVEIRA. Roberto Cardoso de, As categorias do entendimento na formação da Antropologia no 29 da Série Antropológica – 1982

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