Afirmação negativa e lembranças encobridoras (5)

Wilson Geraldo de Oliveira

“Ou aprendemos a viver como irmãos, ou vamos morrer juntos como idiotas.”
Martin Luther King

A ideia da superioridade do Extraterrestre em relação aos terrestres é particularmente interessante e curiosa. Tenhamos clareza de que esse entendimento equivale a afirmação negativa da identidade do ser humano terrestre. E o que pode parecer intrigante é que essa afirmação é feita por nós. Reconheço que com tanta mistificação é difícil pensar essa superioridade sem achar que ela seja uma obviedade. Mas não é necessariamente assim. Superioridade em relação a que valores?

Estamos diante de uma enorme diversidade de contextos valorativos, tempos históricos, relações, habilidades, rumos ou processos evolutivos, muitos deles impossíveis de se imaginar. Além de tecnologias avançadíssimas que fazem elementos da imaginação, fatos quase inquestionáveis. Conhecer os fatos a partir da observação direta é o que poderia nos levar à comparações e confirmações de diferenças e características significativas para cada civilização na sua origem ou local onde se encontra. Isso  no entanto, é tarefa impossível para nós mortais comuns. Imaginar, não! Se eu quero imaginar o extraterrestre como um imortal, um semi-deus ou um deus, tudo é possível.

Imaginar é um exercício saudável e muito importante! Questionar também. Talvez a negação de nós mesmos em várias situações, seja devido à influência de um pensar colonizado, imposto pela vontade do outro, que nos leva a acreditar no que vem de fora como melhor e/ou superior a nós. Ou ao pensamento religioso, identicamente moldado, e em muitos casos, messianicamente presente nestas narrativas de relações ideais com outro, Criador ou Criatura de alhures no cosmos, com os quais lidamos a partir de nossas diversas culturas. E mais uma vez, que tenhamos isso claro, que é fundamental acreditarmos em nós enquanto nascidos do planeta terra. Nossa casa comum. Superarmos as nossas diferenças internas e alcançarmos, aí sim, a unidade da raça.

O Expansionismo e a negação civilizatória

Será construindo estações espaciais e colônias em outros planetas ou em pleno espaço e deixando para trás o nosso habitat natural depredado, que seremos seres melhores? Respondeu-me assim, um amigo: “Penso que isso equivale a ‘cuspir no prato que comeu’, para usar um dito popular”. Mas é muito mais do que isso.

Equivale também a uma enorme traição à raça, para sermos bastante crus. Permitirmos que o pequeno grupo de bilionários, cuja riqueza acumulada, extraída da força de trabalho de seus semelhantes, construa seus bunkers espaciais privados, ou plataformas, ou colônias, como quiserem chamar, a fim de promoverem uma evacuação planetária em caso de supostas catástrofes é, nesse momento, no mínimo, ausência de solidariedade.

Muito embora, possa parecer o contrário. Vivemos muitas consequências dessa acumulação desigual e há muitas soluções a serem alcançadas em terra, antes dessa aventura desmesurada pelo espaço. Tem muita gente com fome de pão e de saber. Além disso, não é possível pensar em garantias de que essa riqueza acumulada e respaldada pelo direito à propriedade, seja usada em favor de todos. Conforme estudo de dados da revista Forbes entre 18/03 a 19/05/2020, a riqueza dos 600 bilionários americanos aumentou em 374 bilhões em plena pandemia de covid19. (Rev. INFOMONEY)

Conforme publicado no Nexo Jornal Ltda “Os planos de colonização espacial são em parte motivados pela perspectiva de que a Terra um dia se torne inabitável. Isso aparece na visão apocalíptica do dono da SpaceX, Elon Musk, por exemplo. Ele vê a exploração espacial como rota de fuga para quando uma ‘nova Idade das Trevas’ assolar o mundo”. Ora, vejam, como não somos capazes de acreditar na existência de alternativas saudáveis e menos ainda de lutar por elas em favor de um coletivo maior! Mas somos capazes de acreditar na inevitabilidade das catástrofes! Aí está, uma forma de afirmação negativa da identidade terrestre. Percebemos que não se trata apenas de uma postura apocalíptica, presente em narrativas de contato com extraterrestres no interior do movimento ufológico e fora dele. É também, a recusa civilizatória das elites.

Há nesse caso o pretexto de salvar a humanidade, no entanto, tais iniciativas confirmam em grande medida, a negação à possibilidade de redução das desigualdades econômicas e sociais e a negação a um modo de vida sustentável em nosso próprio planeta terra. Em vez disso, a persistente e acelerada acumulação predatória do capital. Extração e gastos de riqueza em favor de projetos que não poderão oferecer qualidade de vida, com equidade, a 8 bilhões de pessoas e aumentando. Vejam acima o gráfico da previsão de crescimento populacional para os próximos anos. Se não somos capazes de impor limites ao comportamento predatório do capital hoje, quando estamos todos presos ao planeta, quando faremos isso? Hoje, nosso planeta é nossa única morada. Amanhã, dirão: não fomos nós, não temos culpa, seguimos as regras do mercado, seguimos as leis, se acumulamos é decorrência da força inerente ao capital. E estarão certos, embora a natureza dos meios não justifiquem os fins.

Não é somente a ausência de um modo de vida solidário que nos impede de ver alternativas que nos torne coletivamente mais humanizados. É a falta de vontade de mudar e também a impossibilidade de quem está totalmente comprometido e se beneficia de um modo de vida não solidário. Aqueles que estão se beneficiando da exploração da força de trabalho humano no planeta, direta ou indiretamente, não deixarão de continuar acumulando.

Como diz Mészáros, “Só um vasto movimento de massas radical e extraparlamentar pode ser capaz de destruir o sistema de domínio social do capital. (…) o Estado moderno é entendido pelo autor como uma estrutura política compreensiva de mando do capital, um pré-requisito para a conversão do capital num sistema dotado de viabilidade para a sua reprodução, expressando um momento constitutivo da própria materialidade do capital. Solda-se, então, um nexo fundamental: o Estado moderno é inconcebível sem o capital, que é o seu real fundamento, e o capital, por sua vez, precisa do Estado como seu complemento necessário. A crítica radical ao Estado ganha sentido, portanto, somente se a ação tiver como centro a destruição do sistema de sociometabolismo do capital.” (MÉSZÁROS, 2011)

Essa inexorabilidade do sistema do capital; nossa fragilidade em conter seu impulso predatório, nos leva ao descrédito de nós mesmos enquanto democracias e coletividades responsáveis pelos nossos próprios destinos. Pensamo-nos negativamente, quando não acreditamos nas instituições que idealmente poderiam mediar nossos conflitos de interesses, entre indivíduos e entre coletividades, no seio de nossa sociedade planetária. Na prática, elas não cumprem funções mediadoras, mas de controle social em favor do capital. Assim, apelamos para um ente externo. Nesse apelo, o extraterrestre se afigura de grande utilidade aos nossos anseios. Uma busca nas redes sociais mostrará o grande aumento de grupos ufológicos, místicos, esotéricos ou de interessados em estudos dos extraterrestres.

Não podemos nos esquecer do impacto do fenômeno OVNI/UFO sobre os nossos referenciais. As interpretações que damos ao grande número de observações de OVNI/UFO, cujas manobras violam grande parte de nossas leis físicas conhecidas, inclusive, o sentido intuitivo dos sólidos e volumes. Ainda que seja apenas uma superioridade técnica, fundamental no trato  com a materialidade do nosso planeta, é muito evidente a impressão que ela nos causa.

Afinal, o progresso material, mediado pela técnica, tem sido um parâmetro primordial nas avaliações entre nossos povos terrestres. Talvez devêssemos nos perguntar se esse progresso técnico, material, nos tem possibilitado algum “progresso ético e moral”. Tem contribuído para libertar a humanidade latente em nós, ou nos condicionado a rotas cada vez mais distantes desse humanismo? Alguém ou alguma coisa inteligente, além de nós, está aqui, agindo, fugidia e sorrateiramente. Enquanto isso, pensamos em deixar a nossa casa ainda desconhecida e um modo de vida desconfortável para bilhões de conterrâneos e partimos (plural?) a criar colônias espaciais.

Lembranças encobridoras e/ou desejo de liberdade

Tais aspectos, possibilidades interpretativas e pensamentos sobre o outro extraterrestre, não ocorre independente de nossa cultura, religiosidades, nossas artes e nosso conhecimento científico e empírico ou de senso comum. Há aí um processo cumulativo de todas estas áreas com influências intergeracionais e ainda assim, ou talvez por isso mesmo, muito das narrativas de contato, podem representar elaborações intuitivas a partir de tais influências.

É certo que podemos buscar em nossa memória ancestral, ajudados por registros advindos das áreas citadas acima, que outro, estrangeiro, dotado de um alto grau de superioridade (o colonizador europeu), tenha sido parte de nossas relações étnico-raciais no passado. E é mais que sabido, isso não foi nada bom! Tais relações, vividas, pensadas e narradas do ponto de vista do nativo/colonizado e também do colonizador nas Américas p. ex., mostra um pensamento de que aquele que chegou ao continente por via marítima, chegou de “outro mundo”, e é aceitável dizer que trouxe consigo uma superioridade no mínimo tecnológica. Afinal, singrou os mares num tempo em que isso não era comum.

O inquietante desse aspecto é que parece que estamos a ignorar que a marca deixada por essa relação com outro (estrangeiro) trouxe muita destruição e morte. E se representamos por uma analogia ainda que inconsciente, nas narrativas de contato com extraterrestres – também um estrangeiro – elementos dessa história, porque trocamos o pavor que deveríamos sentir, pela adoração ou admiração a esse novo desconhecido, que se insinua em nossos horizontes? Estranha forma de representar! Em vez de nos fazer recordar a dominação estrangeira, vivida através das relações étnicas e “raciais” para a nossa defesa contra relações similares, agimos como se as tivéssemos esquecido totalmente. Penso que deveríamos ter, pelo menos, um pé atrás!

Pode ser que haja aí uma influência muito forte do colonialismo sob o qual ainda vivemos. Ou o papel ideológico influente das religiões, importantes para gerar uma interface positiva para o contato com um ente externo. Tal imagem de interface se sobrepõe a uma imagem histórica, aceitável, talvez afeta à ideia do perdão. A figura de Deus ou Deuses criadores, protetores e cuidadores. No entanto, existem outras possibilidades.

Talvez estejamos nos deparando com mecanismos de falseamento de memória, tais como os sugeridos nos estudos de abduzidos. (Hopkins, 1993; Mack J,1997).

Sigmund Freud trata do fenômeno das “Lembranças encobridoras” as quais podem ter por base o esquecimento. E talvez, este seja um conceito que pode ter servido às pesquisas desenvolvidas por vários pesquisadores do fenômeno das abduções, como os citados no parágrafo anterior, cujos trabalhos, deram origem a filmes como “Intruders”. E já que menciono este filme, vale lembrar outro muito impactante sobre experiência de abdução. “Fire in the Sky” (Fogo no céu), que mostra também as dificuldades de se assumir tais experiências publicamente, seja como testemunha ou como protagonista de tais eventos.

Em um artigo de Brito e Canavêz sob o título, “A memória nos textos iniciais de Freud” eles dizem:
“… um dos elementos encadeados à memória – e também muito importante na teoria psicanalítica – é o tempo. O que Freud parece nos dizer é que os três tempos: passado, presente e futuro são separados somente até certo ponto. Nós os organizamos, separamos e sobre eles falamos como apartados. Tal modo de entender e discursar atrela-se ao nosso nível consciente, com o qual podemos ter a ilusão de que os diversos tempos são assim mesmo separados e reservados cada qual a um suposto seu lugar. No funcionamento psíquico, entretanto, opera com proeminência o inconsciente, instância em que os três tempos se atravessam mutuamente, vindo a exercer interferência um sobre o outro. Assim, o que passou não exatamente é passado; o que é presente não pertence só ao hoje, pois se liga ao passado, atualizando-o e redesenhando-o de algum modo, em acordo com as circunstâncias sob as quais nos situamos. Acresce dizer que o passado e o presente servirão de base para os desdobramentos daquilo que ainda viveremos e que chamamos futuro. Ora, a memória se constrói e opera exatamente aí, como inseparável do fator tempo.” (BRITO & CANAVEZ, 2016).

Parece-nos, que a iminência de revivermos relações muito caras à nossa diversidade étnica está a nos fazer repensar ou redesenhar o nosso passado de relações “raciais” e Interétnicas, ao ponto de esquecermos e substituirmos tais memórias traumáticas por expectativas de relações positivas com extraterrestres. Ou será mais que um mecanismo do inconsciente coletivo?

Nesse redesenho, podemos entender que seja importante que vejamos os seres extraterrestres como superiores e tutores de nossa infância civilizatória? Esquecemos ou encobrimos uma lembrança ruim relacionada a relações “raciais”  vividas entre etnias, internamente à nossa sociedade terrestre e exaltamos ou evidenciamos através das narrativas de contato, uma expectativa positiva para possíveis relações inter-raciais, num plano de relações desejadas com extraterrestres. Uma vez decepcionados com a impossibilidade de alcançarmos um certo nível de humanização de nossas relações internas, apelamos para relações tutelares externas que nos libertem.

Referências bibliográficas

  • BRITO, Wallace da Costa; CANAVEZ, Fernanda. A memória nos textos iniciais de Freud. Est. Inter. Psicol., Londrina , v. 7, n. 2, p. 101-122, dez. 2016 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2236-64072016000200007&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 27 abr. 2020.
  • HOPKINS. Budd, Intrusos – Um Estudo Sobre o Rapto de Pessoas Por Alienígenas. Editora: Record, 1993
  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%A7a_(categoriza%C3%A7%C3%A3o_humana)
  • https://www.infomoney.com.br/negocios/bilionarios-americanos-ficaram-us-434-bilhoes-mais-ricos-desde-o-inicio-da-pandemia-aponta-relatorio/ – lido em 24/05/2020
  • https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/10/29/A-corrida-espacial-dos-bilion%C3%A1rios-que-querem-colonizar-planetas – lido em 24/05/2020
  • István Mészáros. Para além do capital: Rumo a uma teoria da transição (Coleção Mundo do Trabalho) (Locais do Kindle 152). Edição do Kindle.
  • Mack. John, Abduções. Biblioteca Documento Ufo, Vol. 3. Ed. Educare, 1997

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Imagem destacada de Bárbara Coelho Oliveira

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